Presença de cães de vida livre faz onças-pardas mudarem rotas e evitarem áreas em SP

A fauna silvestre no interior de São Paulo enfrenta um desafio comportamental inesperado. A presença de cães de vida livre em áreas de preservação ambiental tem forçado as onças-pardas (Puma concolor) a modificar seus padrões de deslocamento e uso do território, um fenômeno que preocupa especialistas em conservação da biodiversidade.
Pesquisadores da Unesp conduziram um estudo detalhado, publicado na revista Biological Conservation, para monitorar como o maior predador terrestre da região reage à circulação de caninos domésticos. O levantamento utilizou armadilhas fotográficas instaladas na Estação Ecológica de Santa Bárbara e na Floresta Estadual de Águas de Santa Bárbara para registrar as interações indiretas entre as espécies.
Impacto na rotina e a paisagem do medo
Os dados coletados indicam que as onças-pardas evitam áreas frequentadas por cães domésticos, comportamento que os cientistas classificam como a paisagem do medo. Nesse cenário, a simples percepção de risco — seja pelo odor ou pela presença física dos cães — é suficiente para que o felino altere suas rotas de caça e horários de atividade.
O monitoramento revelou que, após a passagem de um cão por um determinado ponto, a onça-parda leva em média 74 horas para retornar ao local. A retomada do uso rotineiro da área pelo felino ocorre apenas após um período de cinco a seis dias, demonstrando uma cautela extrema para evitar possíveis confrontos diretos com matilhas ou a exposição à presença humana.
Origem dos animais e o papel das comunidades rurais
É fundamental esclarecer que os cães observados não são animais abandonados, mas sim cães rurais de vida livre. Eles possuem responsáveis em propriedades vizinhas às unidades de conservação, porém circulam sem supervisão durante o dia, adentrando matas e áreas de vegetação nativa onde a fauna silvestre busca refúgio.
A onça-parda, ao detectar esses animais, associa a presença dos cães ao risco de encontrar humanos ou de enfrentar grupos de cães, o que representa uma ameaça direta à sua sobrevivência. Essa interferência ocorre de forma indireta, sem a necessidade de um embate físico entre as espécies, mas gerando um custo energético significativo para o predador, que precisa buscar novas áreas para se alimentar e transitar.
Necessidade de políticas de posse responsável
Para mitigar esses impactos, os autores do estudo defendem a implementação de estratégias integradas nas comunidades rurais do entorno das reservas. O foco das ações deve ser a promoção da posse responsável, garantindo que os animais domésticos permaneçam sob controle de seus tutores e não transitem livremente em áreas protegidas.
Entre as medidas sugeridas pelos especialistas estão programas de castração, vacinação e microchipagem, essenciais tanto para a proteção da fauna nativa quanto para a saúde pública. A conscientização dos proprietários rurais sobre o impacto ambiental causado pela livre circulação de cães domésticos é apontada como um passo decisivo para a preservação das onças-pardas na região. Mais detalhes sobre a pesquisa podem ser conferidos na Biological Conservation.
Fonte: caesegatos.com.br













