Estudo aponta que cesariana eleva em 45% risco de câncer de placenta após mola gestacional

Estudo aponta que cesariana eleva em 45% risco de câncer de placenta após mola gestacional

Um estudo conduzido pela Maternidade Escola da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) revelou uma correlação preocupante entre o parto cirúrgico e o desenvolvimento de complicações graves após a ocorrência de mola gestacional. Segundo a pesquisa, mulheres com histórico de cesariana apresentam um risco 45% maior de desenvolver neoplasia trofoblástica gestacional, um tipo raro de câncer que tem origem nas células da placenta e se prolifera no útero.

A neoplasia trofoblástica é a complicação mais severa da mola gestacional, condição caracterizada por uma fertilização anormal que resulta em uma estrutura placentária anômala, podendo ou não conter um feto inviável. Estima-se que, em até 20% dos casos, células remanescentes dessa estrutura se alojem no útero, evoluindo para o quadro oncológico. No Brasil, a incidência da doença trofoblástica é de um caso a cada 200 a 400 gestantes, totalizando cerca de 2,9 mil registros anuais da neoplasia.

Impacto da cesariana na saúde uterina

A investigação, realizada em parceria com o Centro de Doença Trofoblástica da Nova Inglaterra, vinculado à Universidade de Harvard, analisou dados de 2.904 pacientes entre 2002 e 2022. Os resultados indicaram que 26,5% das mulheres com histórico de cesárea desenvolveram o câncer, em comparação com 20,8% daquelas que não haviam passado pelo procedimento. O estudo controlou variáveis externas para confirmar que a cirurgia atua como um fator de risco independente.

A hipótese central dos pesquisadores é que a cicatriz deixada pela cesariana cria uma área de fragilidade no útero. Esse tecido cicatricial, além de desregular o sistema imunológico local, exige um remodelamento vascular e pode apresentar fibrose. Essa condição facilitaria a invasão das células da mola gestacional, funcionando como uma porta de entrada para a progressão da doença.

Cenário brasileiro e recomendações clínicas

O Brasil possui uma das maiores taxas de cesarianas do mundo, atingindo 55% dos nascimentos, enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza um índice de 15%. O coordenador do ambulatório da UFRJ, Antônio Braga, ressalta que, embora a cesariana seja um procedimento salvador de vidas quando indicado corretamente, o novo achado reforça a necessidade de cautela na indicação cirúrgica.

Os pesquisadores estimam que uma redução de 20 pontos percentuais na taxa de cesarianas no país poderia evitar cerca de 177 casos de câncer por ano. Apesar do risco elevado, a recomendação médica não é de tratamentos mais agressivos preventivos, mas sim de um monitoramento clínico mais rigoroso para pacientes com histórico de cesárea que venham a ser diagnosticadas com mola gestacional.

O acompanhamento padrão para a neoplasia inclui o esvaziamento uterino por aspiração, ciclos de quimioterapia e a monitoração constante do hormônio HCG. A Maternidade Escola da UFRJ, que abriga um dos maiores centros de referência mundial no tratamento dessas doenças, defende que a neoplasia pós-molar seja considerada uma possível consequência de longo prazo do parto cirúrgico.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

Redação - WM

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